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Seis horas de viagem, um mar que não sossegava, chuva constante e lá dentro tudo se
mexia como uma passista de escola de samba. A geladeira abria, frutas rolavam, utensílios
pelo chão. Do sofá super confortável me concentrando para não sucumbir, mas já quase
arrependida de estar ali, escuto a voz do Toddyinho, o tripulante, me chamar. Paula, vem
ver rápido , tem uma baleia dando show ! Respirei fundo, tomei coragem e fui para a popa
do barco onde todos observavam o espetáculo. A uma boa
distância, mas perfeitamente visível, uma baleia jubarte saltava acompanhando o nosso ritmo
de viagem. Enorme como ela só, uma cena linda de se ver, emocionante. Meu arrependimento
se foi naquele momento. Aquela cena, ou melhor, aquele show já teria valido toda a viagem.

Ao chegarmos a Abrolhos ouço a conversa da tripulação. O pior mar que eles já haviam
enfrentado para chegar ao arquipélago. Começo a rir. Só podia ser comigo ! Localizado a cerca de 36 milhas náuticas da costa (70km) a viagem dura em média três horas. Nós levamos o dobro!

Âncora ao mar, tento me situar. Olho em volta e vejo atrás de mim a bonita Ilha de Santa
Bárbara e seu farol. Lentamente o tempo melhora, não chove mais. O mar, da cor “azul-lindo”,
está tranqüilo. Meu mal estar ficou para trás junto com a chuva.

Como única turista a bordo do Netuno, um catamarã motorizado de 46 pés, sou recepcionada
pela guarda-parque Bernadete Barbosa, monitora ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBIO ), órgão ligado ao Ibama. Berna, como é conhecida, vem à bordo dar as boas vindas e instruções, o que se pode fazer e o que se deve evitar ao visitar as ilhas. De imediato fico instigada pela figura alegre desta mulher que vive ali há 24 anos e se considera abençoada por poder acordar todos os dias olhando aquela paisagem e cuidando para que nada mude. Tem lá suas razões.

Em terra conheço os estudantes de biologia que passam meses fazendo pesquisas em Abrolhos e também o pessoal da Marinha. Todos animadíssimos e fazendo tudo para nos deixar à vontade. Embora fosse a única turista do Netuno me juntei ao grupo de mergulhadores que também visitava a ilha neste dia. Fomos então acompanhar o acendimento do Farol de Santa Bárbara, construido em 1861 sob o reinado de D.Pedro II, como diz a placa na entrada, pelos ingleses Miers & Maylor. Fico imaginando como foi a construção deste farol no século XIX, o transporte de material, as pessoas que passaram por ali há tanto tempo ! Lá em cima tudo é lindo. O farol, a paisagem, o pôr-do-sol.

Na descida encontramos Berna em frente à sua casa, uma das cinco que existem na Ilha de Santa Bárbara, a maior de todas as cinco ilhas do arquipélago. Ela nos mostra o pequeno pinguim resgatado em Abrolhos e que estava sob seus cuidados até ser levado para o continente para tratamento. Tão pequeno, frágil e delicado ! Tomei coragem, superei meu medo de aves e passei a mão no bichano. Baleia e pinguim no mesmo dia ? Um dia muito especial, com certeza !
Na manhã seguinte saímos para baleiar. Baleiar : ato de procurar baleias com o objetivo de ficar pasmo, feliz e fotografá-las ! Ao redor de Abrolhos muitas baleias e seus filhotes. De julho a novembro elas vêm para o sul da Bahia onde encontram as condições perfeitas para se reproduzirem e a população tem aumentado ano após ano. Enormes, elas parecem crianças brincando. Jogam as nadadeiras para fora da água como se dessem tchau e ficam de barriga para cima, como gatos e cachorros costumam fazer para ganhar um carinho. Dá vontade de ir lá passar a mão !  Outras vezes pulam para fora da água, quase se exibindo. Infelizmente, a minha primeira baleia foi a única que vi fazendo tal acrobacia de maneira magistral, mostrando todo o corpo, mas esta não fotografei por total falta de condição física.Uma ironia, talvez. As outras que vi foram mais tímidas, mas nem por isto menos lindas ! Uma experiência única, a cada baleia um sorriso, uma emoção. O capitão do barco, Valdely, mais conhecido como Lecréu, conseguia chegar razoavelmente perto. Até que ficamos a cerca de 10 metros de uma mãe enorme e seu filhote. Tão perto que eu, com a câmera na mão, não consegui fotografar. Não por falta de competência, mas porque preferi só ficar admirando, sentindo aquele momento. Existem algumas coisas que a gente tem que guardar só pra gente porque imagem nenhuma é capaz de traduzir.

No mesmo dia vou visitar a Ilha Siriba, local de preservação dos pássaros da região: atobás branco e marrom e grazinas. Desta vez é a Rafaela Lampa, estudante de biologia de Salvador, quem nos leva a conhecer o local e nos mostra as aves, os corais da região. Olho treinado, enquanto fala ela recolhe entre as plantas uma tampa de lata de alumínio. Incrível que as pessoas ainda deixem coisas deste tipo num santuário ecológico. Não entendo, jamais entenderei. As aves são muito tranquilas e acostumadas com as pessoas. Chegam muito perto, curiosos. Vamos observar e somos observados. Uma relação amigável.

No meu liveboard (três dias e duas noites a bordo do Netuno) estas cenas se repetiram. E nas noites, um céu estrelado como poucas vezes vi na vida, dava o tom. Muito silêncio, a escuridão interrompida pelo fachos de luz do farol, barulhinho do mar, uma brisa e a lua ! Além de tudo uma lua linda surgia no início da madrugada. Tudo muito perfeito, aqueles raros momentos de observar o mundo à volta e apenas sentir como as coisas podem ser boas. Simples e boas.

Um fato curioso: para os que estranharem a ausência de fotos feitas de dentro d´água explico que, infelizmente, afoguei minha câmera. Doeu muito, ainda mais porque perdi também fotos bem bacanas.

Para quem se animou, eu recomendo: http://www.apecatuexpedicoes.com.br/

Links legais :

http://www.conservation.org.br/onde/ecossistemas/index.php?id=202

http://viagem.uol.com.br/guia/cidade/prado_abrolhos.jhtm

http://www.icmbio.gov.br/portal/

O momento da partida em Caravelas: desânimo que foi recompensado.

As jubarte são as mais acrobáticas do mundo

ImageO arquipélago de  Abrolhos, situado a 300 milhas náuticas da costa (cerca de 70km)

ImageJogo de vôley entre estudantes e oficiais da Marinha


Fernanda, mergulhadora do Rio de Janeiro

Anno de 1861 sob o reinado de D. Pedro II
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Lá de cima do farol…
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Vista interna
O farol num momento “cena de cinema” ao anoitecer
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Pinguim curioso!
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Lecréu, o capitão
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Mais baleias…

Nadadeiras para cima !
A Ilha da Siriba que parece..uma baleia !

Mamã e filhote
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Ilhas Siriba (à esquerda) e Redonda
Bernadete Barbosa, a Berna
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Rafaela Lampa, estudante de biologia, monitorando a visita à ilha da Siriba
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Coral cérebro típico de Abrolhos
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Atobá branco

Família de Atobás marrons
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Grazina, uma das espécies locais
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Os atobás na Ilha da Siriba são muito acostumados à presença humana, quase posam para fotos !
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Barcos que vêm para o bate e volta no arquipélago vistos da Ilha da Siriba
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A tripulação do Netuno: Bruno, Lecreu, Toddynho e Juninho. A galera da Apecatu Expedições foi sensacional !

Estou de ressaca. Sim, depois de cinco dias me embriagando em Paraty, volto a São Paulo curtindo uma deliciosa ressaca pós-Flip. Esta ressaca faz eu me sentir extremamente bem, inspirada, animada, feliz.

A Festa Literária Internacional de Paraty é para mim o melhor evento cultural do país. É imperdível, mesmo se você não é um leitor contumaz (como não?). Ir à Flip é celebrar a vida, a criatividade, o encontro. Este ano enquanto a Festa comemorava sua décima edição, eu festejava a minha sexta participação. Estava lá de novo ! Perdi quatro edições e pretendo não perder mais nenhuma se a vida assim permitir.

Este ano estava acompanhada das minhas amigas Danita Cotrim, Nina Maniçoba, Dany Tavares, Giovanna Vilela  e Lidia Izecson. Elas fazem parte do grupo B_eco de Escritores e são também editoras/colaboradoras do site Garapa Paulista , do qual também me tornei colaboradora. Portanto, não poderia estar melhor acompanhada para um evento de literatura !

Festa O evento é de literatura, mas tem ares de uma animada festa (confesso que adoro que o nome da Flip seja festa e não festival). Paraty por natureza é uma cidade fotogênica e deliciosa, mas na Flip toda ela se enfeita, se ilumina de uma maneira muito especial. Este ano o tempo não poderia estar melhor: um céu azul de outono com temperaturas de verão fizeram shorts, vestidos e bermudas desfilarem pela cidade em pleno inverno, dando um colorido caliente à paisagem histórica que a partir das primeiras horas da noite se iluminava por uma gigantesca lua cheia. Sol e lua, protagonistas de um lindo conto de amor, iluminando o cenário.

Conversar muito, ver as mesas da Flip, rir, refletir, aprender, fotografar, trabalhar, observar, ir a festas, saraus, comer muito bem (destaque para o ceviche servido no restaurante da Ilha do Catimbau instalado nas dependências da própria Flip), encontrar amigos de longa data, amigos de outros lugares, amigos antes virtuais. Esta foi minha rotina durante a festa de literatura.

Mesas Das 15 mesas que assisti durante esta Flip, gostei muito da primeira, Escritas da Finitude, apresentando três jovens escritores já muito premiados e que são total novidade para mim. São eles Altair Martins, André de Leones e Carlos de Brito e Mello. Aliás, acredito ser esta a maior vocação da Flip : me apresentar escritores que desconheço, sejam novos ou não. Em 2010 tive o imenso prazer de conhecer Lionel Shriver, escritora inglesa e colunista do jornal The Guardian, da qual me tornei grande fã após sua palestra. Terminei seu romance O Mundo Pós-Aniversário em lágrimas. Primeiro porque o livro é muito bom e, consequentemente, porque eu não queria que aquele livro acabasse jamais.

Nesta Flip tive minha curiosidade aguçada por diversos “novos” autores. Para citar alguns: Alejandro Zambra, Jackie Kay, Jonathan Franzen, Rubens Figueiredo, João Anzanello Carrascoza, Dulce Maria Cardoso, Carlito Azevedo e, óbvio, os três autores da primeira mesa já citados. Nesta pequena lista há autores do Chile, Brasil, Portugal, Escócia, Estados Unidos.

Falando um pouquinho dos brasileiros: João Anzanello Carrascoza me chamou a atenção pela sua escrita simples, mas intensa. Escrever sobre o cotidiano com delicadeza e eloquência não é tarefa fácil. Gostei, me prometi conhecê-lo. E fui parar na mesa de Rubens Figueiredo e Francisco Dantas muito intrigada pelo texto de apresentação na programação oficial da Flip, que os chamava de “dois dos principais escritores brasileiros”. Como assim ? Eu não os conhecia. Fui perguntar. Nenhuma informação com as amigas também. Então, é ver e conhecer. E não é que foi interessante ? Uma mesa pontuada pelas personalidades de seus protagonistas. Francisco Dantas estreiou na literatura aos 50 anos (me faz ter esperança de um dia escrever também!). Natural de Sergipe, tem uma escrita regionalista e muito trabalhada. Seu jeito simples, mas marcante arrancou risadas da platéia. Já Rubens Figueiredo é um conhecido tradutor, ganhador de dois prêmios Jabuti, do Portugal Telecom e do Prêmio São Paulo de Literatura. Sim, ando bem desinformada ! Muito tímido, ele parecia querer desaparecer daquela mesa correndo! Quando o mediador, João Cézar de C. Rocha,  afirmou em sua apresentação que Rubens tinha diversos livros publicados, o autor, imediatamente, o corrigiu com muita simpatia, afirmando serem apenas cinco. Risos generalizados. E este seu jeito tranquilo, humilde, divertido e um tanto agoniado foi cativante. Gostei muito de suas colocações sobre seu livro Passageiro do Fim do Dia (Cia das Letras – 2010). Escrito enquanto Rubens pegava dois ônibus para ir e dois ônibus para voltar do seu ofício de professor do curso noturno de uma escola pública no subúrbio do Rio. O romance reflete suas inquietações sobre as pessoas que  encontrava no caminho, no subúrbio e a  invisibilidade a que estão submetidas. Para ler e refletir.

E destaque total para o inglês Ian McEwan e para a americana Jennifer Egan. Os dois participaram da mesa Pelos Olhos do Outro que foi, infelizmente, mornamente mediada por Artur Dapieve que não soube explorar os dois personagens. Estive na entrevista coletiva de ambos que são extremamente simpáticos e acessíveis. Não se furtaram a responder a nenhuma pergunta e me pareceram muito honestos. A americana veio ao Brasil para lançar O Torreão, já que A Visita Cruel do Tempo, ganhador do Pulitzer, já é best-seller aqui. Como escreveu Danita Cotrim no seu texto para o Garapa Paulista, Jennifer é “bonita, simpática e demonstra vigor adolescente ao ousar ser criativamente desafiadora em suas obras”. Fiquei impressionada como a tecnologia e as mídias sociais influenciam seu trabalho. Aliás, a tecnologia parece permear o trabalho de diversos autores atualmente. Estou lendo A visita cruel.., que ainda não me seduziu, embora seja obviamente muito bem elaborado. Até aqui gostei mais da autora que de sua obra.

Ian McEwan veio lançar Serena, um romance de espionagem, que só será lançado na Inglaterra em agosto. Gentil, começou a sua coletiva falando que agora tem laços afetivos e familiares com o Brasil. E contou que aqui seu ilho disse passar os melhores 15 dias de sua vida quando Ian veio para sua primeira participação na Flip. Retornou depois, conheceu uma moça e o resto você sabe…McEwan é um inglês com humor inglês. Hilário quando ao responder uma pergunta da platéia disse que manipular o leitor é sim seu maior prazer. Ambos discorreram sobre a criação de seus personagens, o que nos leva a ver as semelhanças e similaridades na construção de seus textos e processos de criação. Enfim, aquelas coisas que a gente adora saber!

E teve ainda aqueles que mesmo tendo visto antes é sempre bom ver de novo: Fernando Gabeira e Luis Fernando Veríssimo, maravilhosos ! O primeiro arrancou aplausos por seu claro posicionamento político, o segundo por simplesmente ser Veríssimo. Uma delícia! Nesta lista ainda incluo o querido poeta Antônio Cícero (adoro) e Zuenir Ventura. Para ler, ver e rever, sempre !

Por fim, Laerte e Angeli. Como não adorá-los ? Uma das melhores mesas, com certeza! Assisti à mesa Quadrinhos para Maiores na pipoca da Tenda do Telão, já que não tinha ingresso. E, assim como eu e a Danita, ali fora foi juntando muita gente para vê-los, sentando no chão, na areia, aguentando o vento frio que soprava do mar nesta mesa extra que começou às 21:30h. Ninguém arredava pé !

Paralelas Fora tudo que acontece oficialmente na Flip, ainda há a programação paralela. Casa do  IMS, Casa da Folha, Casa da Cia das Letras, Flipinha, FlipZona, Casa de Cultura, Casa Sesc…ufa ! Não consegui ver quase nada ! Para o ano quem vem pretendo ver menos mesas para poder acompanhar um pouco desta programação que é tão diversificada e rica quanto a oficial. Com certeza mais barata já que 95% destes eventos são gratuitos. Ou seja, é possível ir à Flip gastando pouco e se embebedar de muita cultura e alegria. Sem contar os inúmeros saraus e festas pra gente se esbaldar !

Cá para nós, gosto muito mesmo da festa da criançada local na praça. Aquela praça enorme, toda enfeitadinha de livros-frutos, a molecada correndo curtindo casa momento, os bonecos personagens de livros, o encantamento, a algazarra, risos, criançada hipnotizada por livros, cores e literatura. Pode ter coisa melhor ? Se pode eu não conheço, se tem eu não vi.

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E agora é esperar 2013 lendo todos estes livros maravilhosos e conhecendo melhor estes autores. A minha angústia é que eu acho que não vai dar tempo !

Abaixo algumas fotos do evento já que este é, supostamente, um blog de fotografia ! Em tempo: eu acredito piamente que fotografia e literatura são artes-irmãs.

Deguste a cobertura do Garapa Paulista: http://www.garapapaulista.com.br

Descubra o Blog da Flip. Autores, mesas, fotos. Tudo lá: http://www.flip.org.br/

E aos escritores do Grupo B_eco que não puderam estar na Flip saibam que vocês estavam lá sim, o tempo todo!

Tenda dos Autores

Mesa Escritas da Finitude

Paratiense

Simplesmente Paraty

Fernando Gabeira

A portuguesa Dulce Maria Cardozo lê Drummond

O bamba do Zuenir (que me deu inveja pq adoro bamba!)

Jennifer Egan

Ian McEwan

Jonathan Franzen

Fila pra FlipZona

A vida segue em Paraty

Os monóculos com imagens do livro Lembranceiras da minha amiga, a fotógrafa Ieda Marques , que foi lançado em Paraty

livro-fruto

Hipnotizados

Cena comum de ver em Paraty

As escritoras e eu. Da esq para direita: Nina Maniçoba, Giovanna Vilela, Danita Cotrim, Lidia Izecson, eu e Dany Tavares brincando de posar com o homenageado da Flip, Carlos Drummond de Andrade


Eu não conhecia a favela do Moinho. Até o dia em que ela pegou fogo. No dia 23 de dezembro do ano passado, um incêndio fez a comunidade do Moinho ser conhecida em São Paulo. Sim, eu sabia que embaixo daquele viaduto ao final da avenida Rio Branco tinha uma favela, mas nunca soube seu nome. Era apenas mais uma favela entre tantas sem identidade espalhadas por São Paulo, infelizmente. O incêndio queimou cerca de 380 famílias sem casa e um morto. Mais a implosão polêmica de um prédio invadido, onde o fogo começou, fizeram desta comunidade manchete nacional.
Mas o Moinho começou a tomar cara para mim, de verdade, no dia em que meu amigo, fotógrafo Rogério Fernandes, postou fotos em seu facebook pedindo ajuda e doações para a comunidade. Rogério, cuja história com a fotografia é de admirar, vinha fotogrando o Moinho há tempos e agora está na batalha para ajudar a comunidade. Suas fotos me tocaram de forma especial e alguns dias antes do incêndio eu o encontrei no Fotoescambo e conversamos um bocado sobre os projetos dele em presídios e na Fundação Casa, ensinando fotografia. Minha admiração por ele cresceu.
Neste domingo houve uma mobilização na favela do Moinho, o Festival Moinho Vivo, com a apresentação de diversos rappers – famosos ou não – com o intuito de arrecadar doações e também mostrar como andam as coisas por lá. Nada boas. Famílias agrupadas num grande barracão embaixo do viaduto, sem qualquer infraestrutura…acho que já vi esta história antes.
Fui para lá com a câmera e muitas roupas, casacos, sapatos para doar. O clima geral era de festa. Além dos músicos, um grupo de garotos dançando break arrasou numa apresentação maravilhosa ! Mais grafiteiros por todo lado, câmeras fotográficas, gente de várias tribos. Aliás, gente linda e estilosa, daria para fazer um ensaio de moda ali, mostrando genuínas tendências fashion! Assim que cheguei pedi ajuda para levar as doações a um rapaz que acabou virando meu guia na comunidade, Jaime Oliveira. Muito gentil e com uma noção sensacional de fotografia ! Entre uma sugestão e outra de onde fotografar, ele me contou como foi o dia do incêndio e como ajudou a tirar quatro crianças de dentro do prédio. Ao me levar para fazer fotos da capela da comunidade houve um momento de tensão. Enquanto ele se distanciou de mim, um garoto de não mais que 17 anos, veio e me deu ordens de não fotografar naquele pedaço. Imediatamente abaixei a câmera e disse que tudo bem, sem problemas. Jaime não se conformou muito e quis enfrentar o garoto e eu pedi a ele que não fizesse isto. Eu estava ali para fotografar, não causar confusão. Se não me viam como amiga, eu me retiraria numa boa. Insatisfeito, ele ainda tentou outros recursos para que eu fosse até a capela. Expliquei a ele minha postura: se não me vêem como amiga, não vou forçar a minha presença. Talvez fosse diferente se estivesse ali a trabalho e precisasse fazer a foto, mas não naquelas circunstâncias..
A fotojornalista que mora em mim – e que precisa ser mais ativa – tem muitos conflitos em situações como esta, por diversas razões. Não gosto da idéia de fotografar como se fosse usurpar algo das pessoas, da comunidade. O mínimo que posso fazer é devolver a elas algumas fotos. Já combinei com o Rogério de voltar lá e entregar as fotos. Especialmente para o grupo de meninas que encontrei numa viela. Lindas e simpáticas, brincamos de nos fotografar e elas ficaram contentes por eu lhes emprestar a câmera e ensinar como se faz uma foto. Delícia de momento, delícia ouvir: “tia, obrigada, volta pra ver a gente!”. Vou voltar, claro !

Jaime Oliveira, meu “guia” dentro da comunidade

Vários carros com doações

Grupo de break Mistério 2D, de Guarulhos.

Garotada arrasou!

A bela Camila, dançarina de break

Aula de break

Muitas garotas se apresentaram cantando rap, muito bom!

Toni C, autor do livro o Hip Hop está Morto e o meu exemplar. Toda a renda do dia revertida pra comunidade.

Ariane, cheia de estilo

Vista parcial da área do evento que lotou no fim do dia.

Mario Brother e a mãe, Dona Conceição, em frente à casa em que moram. Mario ajudou a salvar muita gente no dia do incêndio.

O moinho que dá nome à comunidade.

Minhas novas amigas!

E eu com elas em foto feita pela Júlia :-)

Padre Carlos, muito sorridente!

O trabalho do Mundano, sempre presente.

E num canto a vida parece seguir normalmente…

Tribos e estilos

A linha do trem que divide o Moinho

O verão lentamente dá as caras no hemisfério sul ou mais especificamente no Sudeste. Muita chuva pra coroar a entrada do ano e, como dizem alguns, levar tudo embora. Eu, particularmente, preferia ter tido menos chuva no Rio de Janeiro, onde fiquei por 10 dias. Mas entre uma chuva aqui e ali, o sol se fez presente deixando tudo mais bonito e fazendo a alegria do povo, locais ou “estrangeiros” de todos os lugares como eu.

Bom para a praia, bom pra me sentir viva, bom para deixar o Rio de Janeiro lindo como ele só, bom para sentir na pele, bom pra fotografar !

Então vem mergulhar comigo, vem…

Mais verão, mais Rio e mais mergulhos nos próximos dias.

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